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11 Agosto 2022

Patrícia Marques: “Acredito que temos potencial, mas continuamos com falta de imagem”

Uma “vontade de mudar de ares”, na certeza de que o regresso aconteceria no prazo de dois ou três anos, fez com que Patrícia Marques rumasse à Bélgica. Hoje, é uma empresária que faz dos produtos portugueses a sua bandeira.

Proposta de trabalho além-fronteiras

No dia em que Portugal comemorava a implantação da República, Patrícia Marques embarcava numa nova aventura. “Sai a 5 de Outubro de 1989, porque tive vontade de mudar de ares numa altura difícil da minha vida. Uma desilusão amorosa foi, certamente, o grande impulso e uma proposta de trabalho na Bélgica fez a oportunidade.”

Viajou sozinha e com a ideia de que voltaria para casa um ou dois anos depois. Patrícia conhecia pessoas que viviam e estudavam em território belga, o que terá ajudado à sua integração. A língua também não foi problema, uma vez que tinha vivido alguns anos com a mãe no sul de França e tinha estudado no Liceu Francês de Lisboa. Durante alguns anos, frequentou um curso de neerlandês.

“Já vim com emprego assegurado e, apesar de só ter ficado quatro meses nessa empresa, não me apeteceu voltar logo e procurei outras oportunidades”, conta. Patrícia acabaria por ingressar nos serviços do Turismo de Portugal, trabalhando na organização da Europalia Portugal 1991. “Tínhamos imensos eventos e organizações, visitas guiadas às exposições e muito trabalho de divulgação para promover Portugal. Desde então, não tenho feito outra coisa: promover e dar a conhecer Portugal, divulgar os nossos produtos, a nossa cultura e uma imagem moderna e inovadora.”

Após 19 anos de trabalho na Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), Patrícia quis ir mais além e decidiu abrir a sua empresa e criar, em Bruxelas, “um espaço diferente dedicado a Portugal”.

Desafio empreendedor

Com formação em Gestão de Recursos Humanos e Segurança Social e, ainda, em Comunicação e Marketing, Patrícia Marques assume-se, hoje, como uma empresária “defensora dos produtos de qualidade, da cultura e da imagem moderna de Portugal”.

Aos 44 anos, dirige uma empresa que promove a imagem dos produtos nacionais na capital da Europa. “A The Sol Ar ajuda as empresas parceiras a exportarem-se e a divulgar a sua imagem através da organização de eventos, funcionando também como um espaço comercial e um parceiro para a distribuição”, esclarece.

Com o objectivo de promover os produtos de Denominação de Origem Protegida, tanto na área alimentar como na dos vinhos, a empresa de Patrícia aposta ainda na internacionalização de empresas com dimensão e produtos de qualidade para prestigiar a imagem de Portugal. “Acredito que temos potencial, mas continuamos com falta de imagem”, frisa.

A adesão da população belga aos produtos portugueses tem sido positiva “depois de passarem a barreira da prova”. Porém, ainda não entraram “totalmente” nos hábitos de consumo. “Este é o passo mais difícil de conseguir. Por exemplo, quando as pessoas vão ao restaurante, ainda não pedem uma garrafa de vinho português por hábito, mas sim por curiosidade.”

Até agora, Patrícia faz um balanço “positivo e em crescimento” do seu projecto, ressalvando que ainda “há muito para fazer”.

Incursões frequentes a solo luso

Patrícia tenta regressar a Portugal “pelo menos” de dois em dois meses para manter o contacto com a família e os amigos. “Para poder promover o País é preciso acompanhar a sua evolução e é muito importante, para mim, não cortar os laços que tenho a todos os níveis. De forma mais egoísta e sentimental, tenho muitas saudades da luz e do mar. Quando estou demasiado tempo sem vir a Portugal, sinto-me cinzenta”, confessa.

Patrícia vê o seu país a braços com “muitas dificuldades e muito potencial desperdiçado”. “A maioria dos portugueses é demasiado fechada nas suas fronteiras, nos seus hábitos e um pouco pessimista e queixosa, o que não ajuda”, acrescenta. As novas gerações já têm “um espirito diferente”, mas ainda é preciso “esperar mais uns anos para que as coisas mudem de verdade”. Para ultrapassar a recessão, Patrícia defende um espírito de maior entreajuda, de maior união, mais trabalhador e cumpridor.

Embora emigrar tenha sido “a melhor coisa” que lhe podia ter acontecido, Patrícia pensa “muitas vezes” no regresso a Portugal. As saudades sustentam-lhe o desejo, mas existe um compromisso mais forte: “entretanto, tive dois filhos de pai belga e considero que fiz a minha escolha de vida ao tê-los”.

Patrícia Posse

 

 

 

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