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10 Agosto 2022

Os cem anos da Route 66

Clique para ampliar Em 1926 arrancou o projecto final que levaria à criação da maior auto-estrada transcontinental da América, e só nesse ano receberia o nome que a popularizou, mas foi em 1912 que se lançaram as bases da Route 66.

A ideia era unir, por estrada, Nova Iorque, na costa este dos Estados Unidos, a São Francisco, na costa oeste. A primeira grande auto-estrada transcontinental começou efectivamente em 1912, mas chamava-se Lincoln Highway. Carl Fisher e James Allison idealizaram e promoveram esta via depois de um movimento de condutores se ter unido a reivindicar uma ligação costa-a-costa.

E foi com os olhos postos numa tentativa de capitalizar a exposição Panamá-Pacífico, agendada para 1915, em São Diego e São Francisco – apresentando-a como justificação para obter subsídios estatais para a construção da auto-estrada – que Fisher e Allison apresentaram o projecto da Coast-to-Coast Rock Highway, a 12 de Setembro de 1912.

Dificuldades no financiamento levaram os dois promotores a recorrer a uma jogada publicitária, mudando o nome da auto-estrada para Lincoln Highway, numa homenagem ao primeiro presidente dos EUA que lhes valeu a atribuição de quase 2 milhões de dólares em fundos estatais.

O traçado da Lincoln Highway, atravessando 13 estados e percorrendo mais de 3.000 milhas, viria a dar origem ao traçado final da U.S Highway 66, mais tarde simplesmente conhecida por Route 66 e ligaria Chicago, na costa leste, a Los Angeles, na costa oeste.

Apesar dos esforços, os principais impulsionadores da Route 66, Cyrus Avery e John Woodruff, tiveram que esperar pela legislação do plano nacional de auto-estradas (1925), que substituía e revia as versões anteriores de 1916 e 1921, para o Governo avançar com o projecto.

Só no verão de 1926 a estrada foi oficialmente baptizada Route 66 e reconhecida como uma das principais vias de ligação transcontinental do país.

Na fase inicial, mais não era do que um aglomerado de estradas estaduais, a maioria em más condições, unidas em rede com a atribuição da placa U.S. 66. Apenas em 1938 ficaram concluídos os trabalhos de pavimentação desta ‘manta de retalhos’ que se transformou num ícone.

A construção da Route 66 correu par a par com dois marcos históricos, que de alguma forma dependeram dela e a impulsionaram: A automobilização do país e a Grande Depressão.

Segundo o Departamento de Estado norte-americano para a Administração Interna, em 1910 havia 180 mil veículos registados nos EUA, um carro para cada cinco mil cidadãos. Dez anos mais tarde circulavam nas estradas americanas 17 milhões de viaturas.

O plano de auto-estradas veio não só dar resposta às exigências de uma população cada vez mais proprietária do seu próprio meio de transporte, que reclamava melhores vias rodoviárias, mas também, simultaneamente, alimentar, de forma crescente, essa mobilidade, cada vez mais acessível a todos. O mítico Ford modelo T foi o exemplo vivo deste fenómeno.

O outro momento histórico relevante foi a Grande Depressão, na década de 1930, que levou ao êxodo milhares de americanos, forçados pela crise a abandonar casas e cidades, rumo à Califórnia, em busca do eldorado, do sonho americano, de um emprego que lhes permitisse sobreviver.

No livro As Vinhas da Ira, de 1939, que condensa na viagem de uma família o retrato de todo um país mergulhado na Grande Depressão, John Steinbeck apelidou-a de Mother Road, a estrada-mãe para onde todas pareciam confluir naquele período em que a Califórnia era o destino.

Mas esta não foi apenas a ‘estrada das oportunidades’, como também foi chamada por ser elemento fulcral de uma das maiores migrações internas que os EUA viveram, mas também pela possibilidade de trabalho para muitos, no âmbito do programa New Deal, lançado pelo Presidente Roosevelt e que apostava na construção e manutenção de estradas para combater a crise económica e gerar emprego.

Suportada pelo New Deal, a 66 ficou concluída em 1938. As oportunidades surgiram também para aqueles que se quiseram fixar à sua beira: Motéis, bombas de gasolina, diners e vários outros negócios pontuavam o percurso e cimentavam uma economia feita de pequenas economias familiares.

Terminada a II Guerra Mundial, durante a qual a Route 66 se transformou num corredor para transportes militares entre as bases entretanto criadas em diversos Estados, viveu um período de prosperidade, com militares a estabelecerem-se junto às bases onde tinham servido e muito trânsito turístico, em direcção à Disneyland ou à Califórnia, mas agora em busca das praias.

O fim da guerra trouxe também um novo fôlego à indústria norte-americana, sobretudo à automóvel, com tantas viaturas próprias que as auto-estradas que até então tinham garantido a circulação, Route 66 incluída, se tornaram obsoletas pelo excesso de tráfego.

Por esse motivo, em 1956 o Presidente Eisenhower aprovou a construção de uma nova rede de auto-estradas, as actuais interestaduais, que, aos poucos, foram substituindo os troços da antigas vias. A Route 66 foi completamente desactivada em 1985, provocando um impacto brutal nas pequenas economias que tinha gerado.

Movimentos em defesa da preservação daquele percurso histórico começaram a surgir pouco depois da sua desactivação e, em 1990, o Congresso reconheceu-a como «símbolo da herança de viagem do povo norte-americano e do seu legado em busca de uma vida melhor».

Mais tarde seria criado um programa de preservação do percurso da Route 66 e a mítica via chegou a ser listada, em 2008, pelo Fundo Mundial para os Monumentos, como um dos 100 locais culturais mais ameaçados.

Permanece, ainda hoje, como o símbolo da aventura, inspirando muitas viagens de sonho.

FONTE: Bomdia.lu

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