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Bruxelas
18 Agosto 2022

O timbre de Nicole Cangueiro

Cresceu a ouvir os fados de Amália Rodrigues e, hoje, Nicole Cangueiro empresta a sua voz ao mais nobre género musical português.

Nicole Cangueiro, Rui Salgado e Sébastien Tamignon compõem o trio que tem levado o Fado às comunidades portuguesas e à população belga que “é muito receptiva à música estrangeira”. “É um público muito rico em cultura. Tanto a população francófona como a neerlandófona têm um interesse pela cultura portuguesa”, sublinha a jovem.

O primeiro concerto aconteceu a 27 de Novembro de 2011, precisamente o dia em que a UNESCO reconheceu o Fado como Património Imaterial da Humanidade. “Muita gente ainda não conhece e revelam muita curiosidade. Quando o concerto acaba, o público fica muito bem-humorado porque passaram pelos sentimentos todos: do sorriso às lágrimas”, relata Nicole Cangueiro.

Desde então, o grupo tem actuado no Norte e no Sul da Bélgica, mas Bruxelas tem sido o seu palco principal. “Actuamos em restaurantes, salas comunais, festas… Gostamos imenso da proximidade com a plateia e como a sala tem boa acústica, posso cantar sem microfone, em respeito ao fado tradicional. Nós e o público acabamos por nos sentir mais unidos.”

Os acordes da guitarra clássica são da responsabilidade de Rui Salgado e Sébastien Tamignon encarrega-se do contrabaixo ou do violino. Para Nicole Cangueiro, cantar o Fado é um acto de entrega e até de transformação. “Não sou a pessoa que era antes do concerto nem a pessoa que volto a ser depois. O Fado tem uma alma que nos penetra e ao público. É como se estivesse a contar ao público a história do nosso povo, a saudade que vive em cada emigrante, a nostalgia que sentimos cá dentro.” Já o poeta português Fernando Pessoa evocou o Fado como “o cansaço da alma forte, o olhar de desprezo de Portugal ao Deus em que creu e também o abandonou. No fado, os Deuses regressam legítimos e longínquos”.

A “grande admiração” pelo Jazz e pelo Blues é comum aos três elementos. “Também gostamos de ouvir concertos dos nossos amigos, que tocam Rock, Bossa Nova, música clássica. O que mais escutamos é música ao vivo”, refere a fadista.

Na pauta do futuro, a formação tem em mente a gravação de um disco, com alguns temas, para se dar a conhecer e, mais tarde, “se tudo correr bem, com músicas originais”.

Identidade por detrás da voz

O Fado está na raiz da portugalidade, daí que longe do país de origem, muitos emigrantes o sintam como um precioso elo de ligação. “Eu e o Rui descobrimos o Fado com os nossos pais, mas o Sébastien ainda está a descobrir. A minha mãe adora cantar e, muitas vezes, cantávamos juntas enquanto limpávamos a casa”, refere a jovem fadista.

Nascida em Autun [França], Nicole Cangueiro mudou-se para a Bélgica quando tinha três anos. “Canção do Mar”, de Dulce Pontes, e “Carmencita”, da diva do fado português, foram as primeiras músicas reproduzidas pela jovem luso-descendente. “Todos os anos, no mês de Agosto, regressamos à nossa aldeia [Peredo da Bemposta, Mogadouro] para a festa. Todos os anos cantava um fado ou dois no palco.”

Aos 28 anos, Nicole Cangueiro assegura que fazer uma carreira artística é “um luxo”. “Não conseguimos ganhar a nossa vida só com a música. Canto com eles e sou professora de Inglês e de Holandês para poder viver e pagar as facturas.”

Patrícia Posse

 

 

 

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