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Bruxelas
16 Agosto 2022

Entrevista com Jorge Sampaio

Nós Cá Fora – Não pensa que os cerca de 5 milhões de portugueses espalhados no mundo mereciam um número de deputados à assembleia sensivelmente superior aos actuais 4 ?

Jorge Sampaio – Penso que não dado que há uma convenção desde o ínicio da Constituição, relativa à emigração e julgo que mexer nisso seria muito complicado. Portanto, prefiro que haja mais gente inscrita, mais gente a votar e talvez um dia, se houver muito maior participação nas eleições, isso possa vir a justificar-se. Até agora, com o número de pessoas que votam, julgo que não.

NCF – Daí a razão do seu apelo feito hoje…

JS – Sim, fiz hoje um apelo para que as pessoas votem nas eleições presidenciais, porque foi um combate meu durante muitos anos para terem esse direito. Afinal, constacto que votam poucas pessoas em relação aquelas que estão inscritas. Era preciso que votassem mais. Por agora, não mexia na Constituição e o que fazia era uma grande campanha para que as pessoas pudessem inscrever-se na altura própria.

NCF – Podia-se fazer um recenseamento eleitoral automático, logo que uma pessoa esteja inscrita na embaixada ?

JS – Não sei se é possível mas alguma coisa de automático teria que haver para poder assegurar que as pessoas estejam inscritas. Ou então mais campanhas, mais esclarecimento, usar internet… Mas de qualquer maneira, penso que também não custa muito às pessoas inscreverem-se porque é uma ligação com Portugal que nos interessa manter e desenvolver.

NCF – Falta então um pouco de promoção…

JS – Falta sim senhor, estou de acordo e é o que estava a dizer : maior promoção para as pessoas sentirem que vale a pena fazer qualquer coisa pelo país.

NCF – Um dos seus prinicipais projectos para os emigrantes é a divulgação da nossa língua, nomeadamente com o site www.jeparleportugais.com . Esta iniciativa está a ter boa aceitação ?

JS – É, pelo menos, um projecto necessário para que as pessoas pudessem sentir orgulho em falar português e possam contribuir para que o português se implante como língua de procura. Isto é, estrangeiros a aprender português, português nos currículos das escolas. Esta campanha, outros programas do governo e o trabalho do ministério da educação são coisas que ajudam a que as pessoas possam ter mais oportunidades de estudar e de aprender português. Portanto é uma campanha como outra qualquer, tem bastante importância mas temos que fazer mais coisas.

NCF – Qual é a sua relação com o Conselho das Comunidades Portuguesas ? Existe um contacto concreto ?

JS – Tenho recebido o CCP sempre quando vai a Portugal. A minha relação é boa, tenho visitado praticamente todas as comunidades em todo o mundo e isso dá-me uma grande alegria. Há pouco tempo, recebi o CCP mais uma vez e espero que o CCP seja mais activo ainda. Quero dizer, é activo mas pode sê-lo mais e pode ser votado por mais pessoas, o que é muito significativo.

NCF – Sente que os luso-descendentes estão cada vez menos interessados na língua e cultura do país de origem ?

JS – É realmente um grande problema. Acho primordial que eles estejam integrados nos países onde estão, mas é importante continuar a ter o conhecimento e a noção das suas raízes e das suas capacidades. E por isso, desejo que os luso-descendentes falem francês, neerlandês, inglês, o que for mas que ao mesmo tempo, consigam falar português correntemente.

NCF – Uma melhoria do ensino no estrangeiro seria uma solução ?

JS – Evidentemente que é. Sinceramente, depois de tantas experiências diversificadas, julgo que a única maneira de levarmos o ensino a ter maior desenvolvimento, é instalar o português no currículo das escolas desses países, como está a acontecer nalgumas escolas francesas. Noutros países está a começar. É por aí que se deve seguir. Ter português no currículo como língua estrangeira que se aprende, quer para os locais, quer para os filhos de portugueses. Se for uma língua só para os filhos de emigrantes, acaba por ser uma língua residual e defensiva, uma língua que não cresce e a nossa está constatemente a crescer, em grande parte com os africanos e os brasileiros que falam português. Portanto, a gente não pode perder isto de vista.

NCF – Acha que os políticos puseram em prática o seu apelo no discurso do 25 de Abril quando pediu mais união entre todos ?

JS – Cada um tem as suas opiniões em Portugal, mas penso que há um longo caminho a percorrer para termos uma noção que abranja mais pessoas, mas aquilo que pedi foi que houvesse unidade de propósitos, sobretudo nalgumas matérias e isso é de facto muito difícil. O país tem alguns confrontos positivos e pacíficos, mas devemos fazer um esforço sobre algumas coisas fundamentais, estarmos de acordo uns com os outros.

Pedro Rupio

© Nós Cá Fora

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