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5 Dezembro 2022

Emigração: Salários altos e forte comunidade na Suíça tornam “muito difícil” o regresso

Clique para ampliar Adosinda Catrino emigrou há nove meses para a Suiça, seguindo os passos do pai, que saiu para a Alemanha quando Portugal recorreu à ajuda do FMI no início da década de 1970.

Adosinda, com 27 anos de idade, seguiu o exemplo paterno mas também dos quatro irmãos, que preferiram, um a um, ir trabalhar para uma empresa de barcos de pesca na Holanda.

Com uma tradição familiar de emigração, Adosinda até preferia ter ficado em Canidelo, Vila Nova de Gaia, onde residia e trabalhava até que o marido ficou desempregado, pelo que concluiu que deveriam juntar-se à “família de primos” que há já vários anos vive na cidade suíça de Savigny e trabalha em Le Mont-sur-Lausanne.

“O meu pai trabalhou sempre em barcos de pesca. Os meus três irmãos, todos mais velhos, trabalham todos na mesma empresa de barcos de pesca na Holanda”, diz a emigrante em entrevista à Lusa, na sua terra natal, onde está a passar uns dias, confessando que “o facto de ter família na Suíça também incentiva a emigrar”.

“Tenho primos lá, trabalhamos todos juntos, praticamente”, explica Adosinda Catrino. “Nós, mulheres, trabalhamos na mesma fábrica [de salada, legumes e fruta] e o meu marido trabalha na construção, pelo menos até ao fim deste ano, que é quando acaba o contrato, na mesma empresa que os maridos das minhas primas”.

“É muito familiar”, admite, entre risos.

Adosinda chegou a trabalhar em Portugal “numa empresa de telecomunicações, durante cerca de quatro anos”, ao fim dos quais adquiriu um café, onde trabalhou três anos e meio, sempre com a ajuda do marido que a apoiava “algumas horas por dia”, mas que “também trabalhava como gerente numa loja de desporto”.

“A loja fechou e ele foi para o fundo de desemprego”, conta a emigrante, referindo que foi depois disso que decidiram emigrar.

O trabalho em Le Mont-sur-Lausanne permite-lhes auferir ordenados que em Portugal “só ao fim de muitos anos” poderiam receber, o que torna “muito difícil” um regresso a curto prazo: “depois de ganharmos o que podemos ganhar lá, vir para cá ganhar muito, mas muito menos, só mesmo se formos obrigados”, assegura Adosinda Catrino.

“Lá ganhamos entre 2.000 e 3.000 francos, ou seja, 2.000 e tal euros. Cá, teria que ser médica. E com estes cortes, se calhar nem isso”, diz à Lusa.

Já com malas feitas para regressar à Suíça, Adosinda Catrino considera que “hoje em dia é mais fácil emigrar”.

“Quando o meu pai emigrou, deixou a minha mãe e os meus irmãos e eu”, conta a jovem. Hoje, “além da família emigrada”, possui “ferramentas” que o pai não tinha, como “internet, televisão e telemóveis”, que lhe permitem estar “perto das pessoas que ficam”.

“Antigamente, o meu pai ligava uma vez de oito em oito meses, porque estava no mar e não tinha qualquer rede de satélite para fazer a comunicação. Os filhos nasciam, eram batizados, faziam a comunhão, iam para a primeira classe e o meu pai não assistia a nada disso. E a minha mãe aguentava a barra sozinha aqui, com quatro filhos. Foi mais difícil nos anos 70 que agora, sem dúvida”, garante.

Adosinda até recomenda que se vá para a Suíça “se houver trabalho, porque também já começa a ser difícil entrar tanta gente ao mesmo tempo”.

“Onde eu trabalho não sinto grande dificuldade, até a nível de língua, porque a maior parte das pessoas que trabalham diretamente comigo são portuguesas, se bem que também haja outras nacionalidades lá. O francês também não é uma língua muito difícil, é muito equivalente ao português e não há racismo. Não há mau trato por não sermos franceses ou suíços, ou por não conhecermos a língua”, assegura.

A emigrante diz que não se sente traída pelo país que a viu nascer, embora sempre tenha querido “fazer vida cá”.

“Se não houvesse solução ficava muito mais triste, mas isto não passa por uma morte, não passa por uma coisa trágica, só temos é que nos readaptar, porque somos jovens e, se tentarmos, conseguimos”, diz.

LUSA

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