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29 Novembro 2022

Andreia Rio: “As pessoas têm medo de investir no fado”

A voz da fadista Andreia Rio já encantou Portugal e conquista, agora, o território belga, onde tem encontrado “muitas oportunidades” para se fazer ouvir.

“O fado fala de sentimentos e os sentimentos não têm uma língua. Mesmo que não se perceba o que se diz, é tão intenso que se sente. Por isso é que o fado é tão bem aceite em todo o mundo”, afirma a jovem fadista.

Tendo Amália Rodrigues e Carminho como referências musicais, Andreia prefere cantar o fado de Lisboa, esse cuja interpretação é indissociável de uma performance criativa que expressa emoções, a crença no destino, o domínio da alma e do coração sobre a razão. Por isso é que quando sobe ao palco, a fadista portuguesa procura interpretar “ao máximo” cada palavra, sentindo e fazendo sentir porque “o fado é uma forma de expressão, uma mistura de sentimentos”. “Até as próprias pausas, os silêncios, tudo isso quer sempre dizer algo”, acrescenta.

Acompanhada por Alfredo Barros na guitarra e pela belga Ana Luísa na viola, Andreia Rio tem actuado em restaurantes, hotéis e festas particulares. “As pessoas são muito agradáveis. Posso até dizer dos melhores públicos que já tive”, sublinha. Já em Portugal, Andreia conheceu alguma frustração: “como se costuma dizer «santos da casa não fazem milagres» e, muitas vezes, preferiam chamar pessoas de fora para cantar quando eu estava mesmo ali ao lado”.

Sob a chancela de Património Imaterial da Humanidade, o fado ganhou maior visibilidade e reconhecimento. No entanto, a jovem fadista considera que “as pessoas têm medo de investir no fado”. “Entre um estabelecimento que organize uma festa popular e outro que promova uma noite de fados, vemos que a adesão não é a mesma. Por isso é que não se organizam noites de fados com frequência. Depois, a crise é mundial e as pessoas não podem investir.”

Digressão por vários palcos

Natural de Sapiãos (concelho de Boticas), Andreia Rio frequentou a Academia de Música e Ballet Mozart, em Chaves, onde aprendeu a tocar viola clássica e acordeão, além de ter concluído o 3º grau de formação musical.

O encontro com o fado acabaria por se dar aos 14 anos, numa “serenata à luz das estrelas”. “O fado surge quando um senhor organiza uma noite de fados na minha aldeia e me convida para cantar. Antes, já cantava em festivais da escola, mas nunca fado”, recorda.

Depois desse desafio, Andreia fez parte do “Meia de fado”, um grupo constituído por professoras do Ensino Básico que cantavam fado, e começou a somar actuações em vários restaurantes, hotéis, festas privadas. O percurso incluiu ainda espectáculos no estrangeiro, nomeadamente nos Estados Unidos, Brasil e França.

Andreia participou ainda no 4º aniversário da morte de Amália, no programa “A Vida é Bela” e na Grande Noite do Fado de Lisboa, sendo seleccionada em 2005 e 2006, mas só em 2008 é que conseguiu sair vitoriosa. “Uma semana depois, concorri ao 2º Encontro de Fados de Almada, onde fui também vencedora”, conta.

Contudo, a sua voz tornou-se conhecida do público português através da participação no programa televisivo “Nasci para Cantar”, onde chegou mesmo à final. “Abriram-se algumas portas, mas não tantas como esperava. No entanto, a experiência televisiva é sempre uma mais-valia”, reconhece a fadista.

Atrás dos sonhos

Licenciada em Enfermagem, Andreia Rio decidiu emigrar para a Bélgica depois de um ano e meio sem conseguir uma oportunidade em Portugal. Veio atrás de “um futuro melhor” que se adivinha já no presente: “consegui realizar o meu sonho de ser enfermeira, num dos melhores hospitais da Europa, e conciliar com o fado, pois aqui tenho muitas oportunidades para cantar”.

Desde que chegou, a sua voz já ecoou na Alemanha e no Luxemburgo. “São muitas as pessoas que pedem cd´s nas actuações e deixa-me triste dizer que não tenho. É um objectivo constantemente adiado por razões financeiras”, revela.

Aos 25 anos, a jovem transmontana sabe que “não é fácil conseguir uma carreira profissional na música, pois é um mundo muito concorrido”. “No entanto, como já tenho o meu trabalho fixo, uma base de sustento, é muito mais fácil investir e tentar.”

Patrícia Posse

 

 

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